Em janeiro de 1992, um navio deixou cair no meio do Pacífico alguns contêineres que transportava. Com o impacto na água, um deles se abriu e espalhou no mar a sua exótica carga: mais de 28 000 bichinhos de plástico, a maioria simpáticos patinhos desses usados para divertir as crianças nas banheiras.

Teria sido apenas mais incidente deste tipo, tão comum nos mares do planeta, não fosse por um detalhe: como se tratava de brinquedos feitos justamente para flutuar, meses depois alguns daqueles bichinhos de plástico começaram a chegar em certas praias da costa do Alasca, a mais de 3 000 quilômetros de distância.

E, nos anos seguintes, continuaram a pipocar em partes bem mais distantes do globo terrestre, como a Austrália e a Escócia, depois de migrarem de um oceano para outro, através das correntes marítimas.

O curioso fato chamou a atenção de alguns cientistas, que passaram a tentar rastrear os avanços dos patinhos pelos mares do planeta, a fim de entender melhor a correntezas e, também, os pontos de acúmulo de lixo plástico nos oceanos. Além disso, despertou o interesse de colecionadores de bugigangas trazidas pelo mar, ainda mais em se tratando de simpáticos patinhos amarelinhos.

Nascia assim a “Caça aos Patinhos Navegantes”, uma brincadeira repleta de aspectos científicos que, durante muitos anos, arregimentou pessoas em diferentes partes do planeta, transformando aqueles simples brinquedos em objetos quase cult para colecionadores e bem valiosos para os estudiosos.

Mesmo hoje, 26 anos depois (e mais de 10 após a última “aparição” de um daqueles patinhos flutuantes, numa praia de Massachusetts, na costa leste americana) alguns pesquisadores oceânicos acreditam que uma parte daqueles bichinhos de plástico ainda estejam vagando pelos mares, sobretudo no próprio oceano onde foram lançados, dando voltas sem parar.

“Eles foram feitos para não afundar e com um tipo de plástico que pode durar 500 anos para se deteriorar no mar”, diz o inglês Curtis Ebbesmeyer, um dos pesquisadores que se interessou pelo caso desde que aqueles patinhos foram parar acidentalmente no mar.

E ele não foi o único. O jornalista também inglês Donovan Hohn chegou a escrever um livro, intitulado Moby Duck (um bem-humorado trocadilho com o clássico Moby Dick), mostrando que alguns daqueles bichinhos haviam “navegado” mais de 80 000 quilômetros, antes de dar em alguma praia.

Isso aconteceu porque aquele contêiner caiu num ponto específico do Pacífico onde duas correntes marítimas se encontram e cada uma prescreve um círculo completo, envolvendo diferentes continentes.

Uma delas, chamada Giro Subártico, faz uma volta completa – e permanente – entre a América e a Ásia, além de unir-se a outra corrente que atravessa o Estreito de Behring, até o Atlântico, o que explica o surgimento de patinhos também na Europa e na costa leste americana.

Até então, a ciência não sabia exatamente quanto tempo um objeto levaria para completar o Giro Subártico. Hoje, graças em parte aos patinhos, sabe-se que é algo em torno dos três anos.

Mas, como as correntes marítimas são circulares e sempre retornam ao mesmo ponto, é bem provável que, mesmo hoje, mais de quarto de século depois, alguns daqueles bravos bichinhos de plástico ainda estejam boiando, em alguma parte do Pacífico. E ninguém sabe dizer até quando ficarão fazendo isso.

Na época do incidente, alguns cientistas logo perceberam que aquela inusitada tropa de patinhos era uma maneira eficaz de estudar as correntes marítimas e passaram a pedir que, quem os encontrasse, fizesse contato.

Ao mesmo tempo, ao notar que algumas pessoas estavam de fato empenhadas em coletar os bichinhos daquela inusitada carga que fossem dar nas praias, a empresa dona da mercadoria perdida, a The First Years, uma rede americana de lojas de artigos infantis, farejou uma oportunidade de ganhar publicidade e passou a oferecer uma recompensa de 100 dólares para cada brinquedo devolvido, o que aumentou ainda mais a busca.

Por outro lado, para os colecionadores, quanto mais deteriorados estivessem os patinhos, mais eles valiam, porque isso significava que haviam ido mais longe ou sofrido mais que os outros.

Recentemente, o tema voltou à tona graças a um polêmico programa da série Planeta Azul, da televisão inglesa BBC, apresentada pelo mais respeitado naturalista da Inglaterra, David Attenborough, de 92 anos.

Para mostrar a nefasta questão dos plásticos nos oceanos, Attenborough decidiu recriar parte da saga daqueles patinhos soltando 250 deles no litoral da Costa Rica, a fim de acompanhar o seu movimento nas correntes marítimas.

A experiência rendeu protestos de ambientalistas, que acusaram Attenborough de estar lançando ainda mais lixo nos oceanos. Mas a equipe logo se apressou em explicar que, após a experiência, que durou apenas alguns dias, todos os 250 patinhos foram recolhidos.

“Só deixamos um ou outro como lembrança para as crianças das praias da Costa Rica”, brincou o respeitado naturalista, que já foi até agraciado pela Rainha da Inglaterra com o título de “Sir” pelos trabalhos realizados em favor do meio ambiente.

O fato é que, desde aquele incidente, 26 anos atrás, os patinhos flutuantes do Pacífico viraram uma espécie de emblema da questão do lixo plástico nos oceanos e um tipo de versão moderna das velhas mensagens dentro de garrafas que vão dar nas praias, que, no entanto, sempre foram bem mais românticas e que, surpreendentemente, resistem até hoje – tal qual alguns patinhos. Como pode ser conferido

Fonte: UOL